sábado, julho 13, 2024

Tropical Nada ou Quando Só A Impossibilidade É Possível

O disco Tropical Nada, da banda de igual nome, ao ser lançado em 2023, pegou uma parcela do público engasgado no café. Daniel Furlan, vocal e guitarrista do recém nascido grupo, era muito mais conhecido por suas peripécias na saudosa MTV e no canal do Youtube de seu grupo, a TV Quase.

Mas a verdade é que, antes de obter fraturas televisionadas ou dar vida a um dos grandes nomes do transporte alternativo, o jovem Daniel estava metido em ambiente de música, já que em mais de dez anos de carreira gravou dois discos e um single com sua banda, a finada Ócio. E você sabe o que tem em ambiente de música.

Eu, como uma pessoa legitimamente escondida em uma caverna, não conhecia esse jovem, a TV Quase, a MTV, os ossos quebrados e todo o resto. Então pude ser alegremente atingida por esse disco como uma pessoa que, caminhando tranquilamente pela rua, se torna o destino final de um piano caindo do topo de um prédio.

Pra explicar meu ponto de vista, preciso voltar duas casas e falar sobre um conceito bastante elegante, que é aplicado tanto na música quanto na literatura, que é o leitmotiv (do alemão, motivo condutor). Basicamente, é a ideia de que uma obra pode conter uma “linha guia”, um assunto, um movimento, uma ideia recorrente que a atravessa toda a sua extensão e que faz com que a mesma adquira um senso de integralidade. Eu venho por meio desta afirmar que Tropical Nada tem um leitmotiv. 

Esse disco nos fala da impossibilidade.

Numa contagem própria (sim, eu contei), cheguei à conclusão de que, nas dez faixas do álbum, podemos ouvir a palavra não sendo dita 112 vezes, seguida pela palavra nada, com 31 repetições, além da menção honrosa a palavra ninguém (7 vezes). Isso sem contar os nunca,  nem aí, pouco me fodendo e correlatos espargidos aqui e ali, por entre as faixas.

Mas isso, por si só não diz muita coisa. O que faz com que a impossibilidade ser, para mim,  um tema subjacente ao disco por completo é como essas palavras, espalhadas pelas músicas de forma desigual, nos falam sobre algo que está escorrendo por entre os dedos.  

Entre elas, como no término de um longo relacionamento, oscilamos entre o mais absoluto desprezo e a vontade desesperada de que não, não agora, não assim. Não Vale Nada, para mim, é a epítome desse movimento pendular. Começamos com o vazio e o tédio e terminamos implorando “não diz que a gente não vale nada”. Também vemos isso na despretensiosa Que Frenesi, onde passamos das palavras de rancor até soltar um quase displicente “se gosta de mim mais ou menos/Já tá bom demais” . Tudo isso coroado pelo refrão, cantado da forma menos frenética possível.

(Futuramente posso escrever algo falando sobre os pontos de contato que eu vejo entre Que Frenesi e Perfect Day do Lou Reed, já que ninguém vai ler mesmo).

Pode se dizer que o disco se trata de um término de relacionamento? Talvez, mas não apenas. Em Sexo Ruim, o desejo cede lugar à desistência. Ontem Eu Tive Um Pesadelo Com Você é, ao seu modo, uma carta de amor vinda diretamente do fim dos tempos. A Gente Não Era Assim termina no lamento título da canção, dolorosamente consciente do inevitável. Quem é Meu Pai tem uma descrição bastante ácida sobre o “eu” que canta.  Crua e cruel. Como se chama quando voltamos a nossa navalha mais afiada contra o próprio peito?

 

Esqueci o nome. 

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