Sou uma pessoa apaixonada por música. Especificamente apaixonada por versões de músicas e como diferentes interpretações podem dar diferentes sabores à mesma canção. Hoje quero falar de duas versões de uma música que eu adoro, mesmo que uma delas esteja particularmente mais próxima do meu coração (mas qual delas eu só conto no final, ok?)
A música é I Will Survive.
A versão da Glória Gaynor, lançada em 1978, é icônica, nos vários sentidos possíveis da palavra. Hino da comunidade LGBTQIA+, mas presente em várias comemorações tipicamente heterossexuais como os churrascos dos meus vizinhos (desculpa pela informação), é impossível não se deixar levar pela batida contagiante e pela melodia animada. Eu mesma não consigo deixa de pensar na força que tem uma mulher negra cantar que, apesar da dor que viveu, a vida continua a irradiar sua energia pulsante.
É uma música que eu poderia dizer... solar. A sobrevivência aqui é celebrada como um reencontro com o próprio brilho, à própria força motriz. Definitivamente uma ode à volta por cima.
E que volta por cima, senhoras e senhores (e demais).
Em 1996, a banda estadunidense Cake lançou sua versão dessa música, deixando claro aqui e ali que nunca teve o objetivo de fazer graça dela, por mais que essa interpretação seja possível, por algumas almas mal intencionadas.
A versão de Cake traz ao sabor da musica notas específicas de amargura. Ao cantá-la quase sem melodia, resvalando mesmo na estética do rap, percebemos cada palavra dita como um objeto perfuro-cortante. Aqui, a sobrevivência tem aparência de pele e ossos.
Sobrevivemos sim, nem que seja na força do ódio.
O que me faz lembrar da citação de um escritor que eu admiro muito: “Eu estou bem. E essa é a minha maior vingança”.
Nesse momento devo confessar que, a pesar de amar cada pedacinho da versão original, como uma boa nativa de uma lua em capricórnio, a versão do Cake se aproxima muito mais do tipo de pessoa que eu sou.
Enfim, com alegria ou com ressentimento, brilhando ou odiando, sobrevivamos.
Que essa seja nossa melhor resplandecência. Ou nossa maior vingança.
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