domingo, julho 21, 2024

Dos Perigos De Se Olhar Pelo Retrovisor

Federico Garcia Lorca tem um poema chamado "Da Fuga", que sempre me tocou, em cordas internas que poucos antes haviam tocado 

Perdi-me muitas vezes pelo mar

E lá estava eu, percorrendo um caminho de mais de duas horas, alternando entre ônibus, metrô e trem, porque eu estava apaixonada. Apaixonada por um homem que eu mal conhecia. O ano era 2007 e eu estava no alto dos meus dezenove anos.

Eu o conheci através de um cartaz de um filme. No cartaz havia um desenho que ele fez. Eu me vi, naquele desenho. Eu me apaixonei pelo nome dele, muito antes de saber seu rosto.

Semanas depois e eu havia consumido tudo o que podia da sua obra. O ano era 2007 e usávamos tecnologias obsoletas como blogs (olá!) e emails. Meus emails, pretensiosos, diziam o quanto eu imaginava que sua alma rimava com a minha. Ele respondeu, marcando um encontro na paulista.

Nos encontramos numa lanchonete próximo à avenida. Ele me presenteou com um livro (que eu estupidamente me desfiz anos mais tarde... porque ainda doesse um pouco, talvez). Depois de algum tempo de conversa, ele chegou à conclusão de que eu não era potencialmente perigosa e ofereceu para me levar até sua casa, para conversarmos mais à vontade.

(E eu, semanas mais tarde, sacolejando nos ônibus (sim, no plural) em direção a um lugar que eu desconhecia por completo, tentava reviver cada momento, embora a memória seja falha e ser factualmente precisa não faz parte da minha natureza.)

Passamos aquela tarde juntos. Gostaria de dizer que me lembro de cada momento, mas seria completamente desonesto. Quase vinte anos depois, são apenas fragmentos que subsistiram. O café, os gatos, os livros, mas principalmente os silêncios. Os silêncios confortáveis, daquele que acontecem muito raramente. Eu tinha tanta coisa pra dizer, mas naquele momento eu só queria ficar.

Como me perco no coração de alguns meninos

Mas é claro que tinha um porém. E o porém chegou do trabalho no fim da tarde, nos flagrando no sofá da sala e eu foi só nesse momento que me dei conta de que meu rosto estava a poucos centímetros do dele, como se estivéssemos todos numa comédia romântica de mau gosto.

Ela estava obviamente enfurecida. E eu, mesmo na época, não pude discordar. Na verdade devo dizer que ela, a pesar de tudo, teve uma atitude bastante gentil para comigo. Mas se foi por gentileza ou para poder ter mais tempo de destilar uma oblíqua passivo agressividade, eu acho que nunca vou saber. Nem quero. Do alto dos meus dezenove anos eu apenas abaixei a cabeça e aceitei o lanche que ela me ofereceu, em parte porque estava realmente com fome, em parte porque minha mente estava no modo "coelhinho assustado" e provavelmente eu teria obedecido a qualquer coisa que ela mandasse. Qualquer coisa.

Ao me despedir, tentei roubar dele um beijo na trave, a modalidade mais linda que eu conheço. Não deu certo, mas a intenção ficou clara.

Não sei se isso foi exatamente bom.

Perdi-me muitas vezes pelo mar

Eu, desci do ônibus no ponto final, no mais extremo da zona leste que eu já havia estado, porque ele ia dar uma palestra. Fui, porque eu queria dar um certo apoio, porque eu queria mostrar que me importava e achava até que minha presença ia fazer alguma diferença.

Uma pretensão sem limites, os jovens de dezenove anos.

Recentemente soube que alguém subiu o áudio da palestra no youtube, sob um nome completamente sensacionalista. E confesso que, mesmo depois de tanto tempo da ferida ter cicatrizado, ainda estremeço quando ouço. Ainda, meu deus, ainda.

"Perdi-me muitas vezes pelo mar,
com o ouvido cheio de flores recém-cortadas,
com a língua cheia de amor e de agonia.
Muitas vezes perdi-me pelo mar,
como me perco no coração de alguns meninos."


Um comentário:

Janos disse...

Ainda...

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