quinta-feira, julho 11, 2024

Bebê Rena, ou Uma Busca Por Um Olhar

           Eu não tenho o costume de assistir séries e, por pura teimosia minha, quanto mais comentada uma série é, menos eu tenho vontade de assistir. Assim passei incólume ao barulho de nomes como Lost, Game of Thrones, Walking Dead, La Casa de Papel e tantos outros nomes que ainda habitam a minha lista do “Não Vi, Nem Verei”

        Bebê Rena foi uma exceção porque, a pesar do barulho insuportável por semanas em todas as redes sociais que eu utilizo (menos do que existem, mais do que deveria), o tema me era parcialmente interessante e os comentários ressaltavam aspectos que me deixavam ao mesmo tempo atraída e com medo.

        Sim, eu tive medo. Eu tive medo pra (insira aqui seu palavrão favorito). Tive medo de, ao assistir, me deparar com sentimentos que eu não conseguiria lidar. Quando a pele está fina, qualquer estilingue é gatilho.

    Felizmente a série não só não seguiu o caminho que eu esperava, como me surpreendeu esteticamente em muitos momentos. Antes da série, o autor e ator Richard Gadd já havia lidado com a história em um monólogo teatral, ou seja, ele sabia bem o que estava fazendo. Os temas são sim, pesados e difíceis. Em alguns momentos me foi difícil terminar alguns episódios (pele fina),  mas a condução da narrativa é bem feita, bem planejada, bem construída. Estabeleceu mesmo um paradigma em matéria de séries, para mim.

      Mas eu queria falar mesmo sobre um aspecto que me saltou aos olhos e que não vi ninguém comentar sobre. E olha que eu vi bem uma dúzia de vídeos sobre a série (embora tenha pulado todo e qualquer material falando sobre “a história verdadeira” e pretendo continuar assim).

         Queria falar sobre invisibilidade.

        Em diversos momentos acompanhamos o personagem principal (Donnie Donn, para quem não viu. e para que quem viu também), comentar sobre a percepção de ser invisível, insignificante. Na raiz dos abusos que ele sofreu tanto por parte de Martha (a stalker) quanto pelo produtor famoso que chegou a violentá-lo, pode sim ter a “ganância por sucesso” que ele mesmo fala na série (e na vida real, em algumas entrevistas que vi). Um desejo de ser importante, “grande”, ou coisa que o valha.

        Mas como eu tenho a interessante capacidade de enxergar com mais misericórdia ao outros do que a mim mesma, penso que lá na raiz, está também o desejo desesperado de ser visto, de ser notado por quem quer que seja. Mesmo que doa, mesmo que seja doentio. Ser visto é melhor do que ficar no limbo de uma inexistência percebida. Em um determinado momento, Donnie diz que queria ter o super poder de ouvir os pensamentos dos outros, não porque achasse que as pessoas pensavam mal dele, mas porque tinha medo que as pessoas não pensassem nele de forma nenhuma.

    No momento em que estamos atualmente, onde a super exposição é tão comum, onde “participamos” das vidas de influenciadores, onde nós mesmos colocamos online muito mais informação do que é saudável, será que vemos? Será que estamos sendo vistos? Vistos de verdade? Ou estamos como naquele ditado, que diz que a melhor forma de esconder um segredo é colocá-lo em praça pública?

 

        Não olhe pra mim, eu não tenho resposta. 

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