segunda-feira, junho 12, 2006

Paloma Brandão

Restos de um antigo blog...percebi o que Leminski viu quando revisitou cadernos velhos: Antigamente eu era eterno.

"Eu vi Paloma Brandão.

Paloma Brandão estava no metrô Jabaquara. Paloma Brandão estava bêbada, Paloma Brandão tinha uma garrafa plástica de suco repleta de um destilado qualquer. Paloma Brandão ia para o Trianom.

Paloma Brandão estava muito machucada. Seus braços tinham marcas antigas nas partes mais altas e muitas recentes nos pulsos. Paloma Brandão gritava, e seus gritos ecoavam pelo metrô. Paloma Brandão entrou no trem e eu a segui. Paloma Brandão sentou-se e eu sentei-me ao seu lado. Paloma Brandão começou a contar suas agruras, a princípio para o vento e depois para mim. Paloma Brandão contou-me sua história. Paloma Brandão gritou sua história para Todo Mundo ouvir, mas Todo Mundo estava surdo, ou fingia estar para apenas apreciar a paisagem.

Paloma Brandão havia estado presa. Paloma Brandão foi presa por causa do seu namorado, Cristiano. Paloma Brandão queria matá-lo. Paloma Brandão disse que não queria voltar para o "Inferno", mas voltaria se fosse por tê-lo matado.

O nome de Paloma Brandão era William Qualquer Coisa Comprida, não gravei, apesar dela ter me repetido algumas vezes. Para mim seu nome é Paloma Brandão. Foi na cadeia que Paloma Brandão havia se machucado. Foi lá que Paloma Brandão ficou doente. Paloma Brandão está com AIDS.

Paloma Brandão me disse por detrás dos seus olhos castanho-chorosos que havia feito vinte e dois anos dia dezenove de agosto. Paloma Brandão disse 'Eu sou uma criança, e minha vida acabou!!!' Paloma Brandão disse que ficou doente porque a estupraram. Paloma Brandão chorou e eu também.

Paloma Brandão desceu na Ana Rosa e eu também, porque tinha que ir à Consolação. Paloma Brandão e eu entramos no metrô Vila Madalena. Paloma Brandão disse que eu fui a primeira pessoa que lhe ouviu desde que saiu da cadeia.

Eu não disse nada.

Eu avisei a Paloma Brandão que estávamos no Trianom. Paloma Brandão me deu um beijo no rosto e me desejou boa sorte. Eu fiz o mesmo. Antes de sair Paloma Brandão jogou-me um beijo e eu fiz o mesmo.

Então as portas se fecharam e eu tive a certeza de que nunca mais veria Paloma Brandão.

E chorei. E chorei. E chorei."

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